Antonio Aires Água sobre lisboa
Água sobre Lisboa

      2 -   Estou aqui. Reconheces-me?

      Encontro um filme rodado por entre pequenos delitos, num vagão encarcerado numa estação ferroviária. São apenas fugas 
lentas, relatos de despojos em crimes suburbanos.

      1 -   Sobreelevas-me...
      2 -   A ti?! Não me vejo assim.
      1 -   ...sim, reconheço-te.

      Assumo o caminho das colinas, é o caminho que me provoca os pés. Uma história a contar, evoluída no dia-a-dia, mas após 
o memoriar     a pausa     com o pensamento em branco...

      2 -   Estás só?
      1 -   Sim, é a cidade quem mo pede, uma acção descrita aos ouvidos do mundo.
      2 -   Sabes, uma manhã acordei, numa outra cidade, bem sabes, repleta de murais, deitada sobre um segredo.
      1 -   A preguiça?
      2 -   Não..   um vagar delicioso!

      Mas tenho esta história, vivida nesta cidade água. Água limpa, pelo menos vejo-a.
      Acerca desta cidade, há o rio que nasceu do prazer entre a noite e o dia, e nele mergulha negra poesia.

      2 -   E tu? 
      1 -   Penso muito no andar, perdido na utilidade de um mapa e ridicularizado por um ponto, depois, ilustro-me na dualidade
das imagens e transparências.

      É um jogo, esta cidade. Velha, nova, caminhada em prazer rua a rua, planeado o princípio do cansaço. Sempre em aberto,
os olhares     imprimidos.   Apercebo-te enorme, em passos de tango. Ficou imóvel, a escadaria...

      2 -   É difícil esta cidade!
      1 -   Pelos degraus?

      Temos de saber conquistá-la, sabes     o cansaço desperta-nos o sabor!     Eléctricos, docas, calçadas, os mercados. A projecção ressalta na bobine, a tempestade anuncia-se       tal como o enredo.

      1 -   Sobretudo   mensageira da tentação, não julgues a paz aparente.       És bela...


                                                         mas o tempo!

      2 -   Sim, aflige-nos. Mas não as horas vividas, certamente, alguma destas janelas não o esquecerá.
      1 -   Sim. Danças um pouco?
      2 -   E a tempestade?...

      Ao filme epidérmico adormeço, adormeces tu também num sorriso de satisfação, ao nadar tão livremente na água das ruas,
onde a pele é origem, palavra sobre palavra.

      2 -   Engraçado, retenho a impressão.
      1 -   Voltas?
      2 -   E a minha cidade?...

      Sou eu, na tua dimensão.